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Inovação na academia e nas indústrias: Fábio Piva fala da importância da união entre os dois setores

Publicado: Terça, 19 de Abril de 2016, 14h13 | Última atualização em Quinta, 28 de Abril de 2016, 08h39

Inventor de um sistema que permite o fim das filas para pagamento em lojas físicas, Piva também fala sobre a importância da educação e do desenvolvimento da cultura de inovação para que o país se torne um produtor de tecnologia

 Mesmo sendo bastante jovem, o Ph.D em Ciência da Computação, Fábio Piva, conhece as diferenças entre desenvolver uma inovação na academia e nas indústrias. Presente na última lista de jovens inovadores brasileiros com menos de 35 anos do “MIT Technology Review”, Piva criou uma tecnologia que permite aos consumidores pagarem suas compras nas lojas físicas, sem precisar enfrentar as filas dos caixas.

Chamado de Auto-Checkout Descentralizado (SAMS-Tag), o sistema inovador permite que o consumidor faça o pagamento da compra (com cartão de crédito, PayPal e outros meios) seja feito no próprio smartphone. Com a confirmação do pagamento, o dispositivo desbloqueia o sistema antifurto da mercadoria e consumidor pode sair com o produto da loja normalmente.

Em entrevista para o NIT Mantiqueira, além de explicar o processo criativo do SAMS-Tag, Piva fala sobre pesquisa e inovação em academia e no ambiente corporativo e sobre a união desses dois setores para executar um projeto do início ao fim.  Além disso, Fábio ressalta a criatividade do brasileiro e a importância de investir em educação para estimular essa característica da população do país e formar pesquisadores que ajudem o Brasil a se tornar um produtor de tecnologia.

Confira a entrevista com Fábio Piva:

 

NIT Mantiqueira: Qual foi a sua motivação motivou para o desenvolvimento do SAMS-Tag?

Fábio Piva: Eu morei na Alemanha de 2011 a 2013, onde fiz parte da minha pesquisa de doutorado através de um programa de “doutorado sanduíche”. Uma das coisas que mais me chamaram a atenção no povo alemão foi justamente o preciosismo deles com relação ao tempo: Lá, qualquer minuto é valioso; atrasos são raros, prazos são cumpridos e tem horário para tudo. Por causa disso, os alemães se irritam facilmente quando algo impacta o planejamento diário deles – especialmente filas imprevistas quando precisam comprar alguma coisa. O comércio eletrônico é muito forte lá – porque você pode comprar praticamente qualquer coisa online e ela chega na sua casa, sem que você precise interromper sua rotina ou sair do seu caminho.

Foi dessas duas observações – o preciosismo alemão com relação ao tempo, e a familiaridade deles com o comércio eletrônico – que a motivação por trás do SAMS-Tag nasceu. É claro que comprar online traz inúmeras vantagens – como conforto e eficiência – mas você ainda precisa esperar a entrega para poder usufruir do que comprou. Nada substitui o “pegar na mão” que as lojas físicas oferecem, e é excitante achar algo que você quer, comprar na hora e levar para casa. Me parecia natural juntar estes dois modelos, e eu comecei a pesquisar formas de fazer isso acontecer.

Eu voltei para o Brasil e, em menos de uma semana, já estava começando no SRBR (centro de pesquisa da Samsung em Campinas). Neste ponto eu já tinha boa parte do conceito na cabeça, mas ainda não sabia como contornar a parte da compra que envolve a remoção/desativação da etiqueta anti-furto pelo caixa – que ocorre quando você pega a fila e paga. Você paga, o caixa pega o produto e aproxima a etiqueta antifurto de um aparelho que o desativa/abre. Comecei a pensar como isso poderia ser realizado pelo comprador, e naturalmente o smartphone foi o primeiro dispositivo que me ocorreu: eu precisava que o dispositivo interagisse com a etiqueta, e fizesse as vezes do aparelho utilizado pelo caixa para o mesmo fim. Das tecnologias disponíveis nos smartphones, o NFC era a que mais parecia satisfazer as necessidades do cenário em questão – mas eu não só não tinha um smartphone com NFC para fazer testes e projetar uma etiqueta antifurto compatível, como não conhecia o suficiente da tecnologia para fazê-lo sozinho. Na época, os smartphones com NFC estavam começando a se popularizar, mas ainda não existiam muitas aplicações sólidas para essa funcionalidade – começava a se falar em sistemas de pagamento móvel, como Apple Pay e S-Pay, mas eles ainda não tinham começado a ganhar momento.

Assim que comecei na Samsung, conheci meu colega Orlando Volpato, que é engenheiro especialista em sensores (Nota: todo componente eletrônico que recebe algum tipo de sinal do ambiente e o transforma em dado é um sensor: câmera, NFC, GPS, microfone, termostato, etc), e a expertise dele viabilizou a materialização e execução do projeto. Muita gente diz que inovação não se faz sozinho, e é verdade – praticamente qualquer ideia que você tenha sozinho, por mais qualificado que você seja, certamente vai amadurecer se você debatê-la e permitir que alguém dê pitacos – resultando eventualmente em uma versão mais bem acabada do que se você tivesse se baseado só no seu próprio mindset. Isso aconteceu com o SAMS-Tag.

 

NIT Mantiqueira: Qual foi a maior dificuldade encontrada durante o projeto? Como conseguiu resolver?

Fábio Piva: Bom, o SAMS-Tag foi o primeiro projeto que eu propus no SRBR, que por sua vez foi a minha primeira experiência com pesquisa em ambiente corporativo (até então eu já havia participado de projetos colaborativos entre Indústria e Academia, mas sempre do lado da Universidade). Por conta disso, eu enfrentei todas as dificuldades que você pode imaginar: Precisei aprender quais são as regras do jogo no contexto de inovação aplicada ao mercado, que são muito diferentes das da Academia. Foi difícil perceber que o foco da pesquisa na empresa é diferente, que os problemas que nos fascinam na pesquisa acadêmica muitas vezes não se traduzem em desafios interessantes para a estratégia da empresa. Assim, foi crucial que eu aprendesse quais aspectos são prioritários para profissionais de outras áreas, a fim de "ganhar" apoio interno e receber carta verde para executar o projeto. Por exemplo, ao apresentar o conceito do SAMS-Tag para um time de engenheiros, eu focava nos aspectos técnicos -- mostrava como o sistema se baseava em duas tecnologias bem conhecidas para viabilizar uma interação interessante do ponto de vista técnico. Quando a apresentação era direcionada a gerentes de recursos humanos ou de projeto, eu não focava em aspectos técnicos ou tecnologias -- mostrava como o projeto tinha impacto em curto prazo e demandava pouca alocação de pessoal. Para um time de marketing, você foca em "efeito wow" e em como o projeto representa uma quebra de paradigma e traz vantagem competitiva para o cliente. 

Quando você vem de um ambiente relativamente homogêneo como a Academia, onde todos seus colegas e superiores têm prioridades e background semelhantes aos seus, você leva um susto. Mas aprender a me comunicar com diferentes perfis no meu time foi um divisor de águas, tanto para o sucesso deste projeto em particular como para a minha carreira como pesquisador.

 

NIT Mantiqueira:  Em sua opinião, quais incentivos devem ser feitos para que jovens pesquisadores façam inovação?

Fábio Piva: Nós vivemos em um país em que a pesquisa e inovação ainda tem raízes fortemente acadêmicas, nascendo nas universidades e, mais recentemente, nas startups. Nesses dois setores, recursos nem sempre são abundantes e não é sempre que é possível executar um projeto de cabo a rabo – da caracterização do problema à materialização da solução. A indústria, por outro lado, oferece os recursos necessários – mas no Brasil, apenas recentemente a indústria começou a absorver doutores (até o final dos anos 90, ter um doutorado no Brasil quase sempre implicava em uma carreira como pesquisador/professor em universidades). 

Ainda não estamos no mesmo ponto que os países de primeiro mundo, em termos de absorção de mão de obra qualificada, e certamente a atual crise econômica e os recentes cortes nas verbas destinadas ao setor de P&D não ajudam a situação. E é aqui que o Brasil tem um problema: Naturalmente, uma crise demanda repriorização de recursos, e há aspectos mais urgentes -- saúde, educação, segurança, empregabilidade -- que demandam atenção imediata no cenário atual. Mas é importante ter em mente que diversos países do mundo estão abrindo suas fronteiras para profissionais estrangeiros qualificados. Hoje, está quase mais fácil para um universitário conseguir uma bolsa de estágio no exterior do que uma bolsa para continuar sua pesquisa de mestrado ou doutorado em sua instituição-sede, no Brasil. Por outro lado, os recém graduados defendem suas teses e se veem em uma situação desconfortável: "Continuo procurando emprego aqui, esperando a situação melhorar, ou vou embora?" Muitos brasileiros não têm essa opção, mas o jovem pesquisador é quase sempre tentado pela expatriação através de melhores condições de trabalho e de vida em outros países. Em suma, precisamos assegurar a oportunidade contínua para a formação de novos pesquisadores, mesmo em momentos delicados como o atual, ou em 5-10 anos veremos um Brasil parado no tempo, importando mais tecnologia do que exportando, e incapaz de investir em inovação -- fruto de uma evasão continuada de talentos promissores que não tiveram outra opção. 

 

NIT Mantiqueira: Qual a importância da inovação para o desenvolvimento do país?

Fábio Piva: A inovação move o mundo. Já se fala sobre uma quarta revolução industrial, que está começando agora, e o Brasil tem um potencial imenso de ser um de seus expoentes; mas para tanto, precisa começar a investir mais seriamente em educação, pesquisa e inovação - opostamente as medidas que vêm sendo tomadas como consequência da crise econômica (congelamento de bolsas de alunos, redução do número de novas bolsas disponíveis, etc). 

Também é importante observar que inovação não é só criar uma tecnologia nova, ou um novo produto; é também simplesmente pensar em um novo jeito de resolver um problema com os recursos disponíveis. O brasileiro é o mestre do improviso, e parece ter um instinto natural, uma criatividade inata que não se ensina, como por exemplo o senhor que criou lâmpadas a partir de garrafa pet e água. Isso é uma das coisas que nos caracterizam culturalmente -- o "jeitinho brasileiro construtivo", por assim dizer. Se todo esse potencial fosse canalizado em prol do país, através de editais de investimento facilitado para inovadores autônomos, concursos de ideias, absorção de riscos na execução de projetos, acho muito provável que o Brasil se tornasse um respeitável produtor de tecnologia, reconhecido internacionalmente. Existem tantos problemas no mundo a serem resolvidos, e a maioria dos países que priorizam pesquisa e inovação não tem oferta suficiente de mão de obra qualificada local. O Brasil está na situação oposta: Temos muita gente talentosa, e também muita gente qualificada e querendo contribuir para melhorar país e o mundo, mas não sabemos como aproveitá-los adequadamente. Isso precisa mudar, e bem rápido.     

 

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Assunto(s): Entrevista , inovação , tecnologia
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