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Artigo discute as Políticas de inovação

Publicado: Quarta, 03 de Junho de 2015, 15h04 | Última atualização em Quinta, 11 de Junho de 2015, 16h15

O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, em artigo publicado no Valor Econômico, debate sobre as estratégias adotadas pelo governo chinês para elevar investimentos nas indústrias e garantir capital necessário para as empresas inovarem cada vez mais

 

Leio na imprensa brasileira artigos instigantes, alguns intrigantes, a respeito de políticas industriais, de comércio exterior e de competitividade, sobretudo as que envolvem a presença coordenadora do Estado. Há os que invocam abstratamente as virtudes dos ganhos de produtividade e de competitividade sem investigar com rigor as formas de organização, de financiamento e os padrões de cooperação entre as esferas públicas e o setor privado nos sistemas nacionais de Pesquisa & Desenvolvimento.

Para enriquecer o debate, na edição de 26 de maio, a repórter Vanessa Jurgenfeld, de nosso jornal Valor, ofereceu aos leitores a entrevista de Mariana Mazzucato, autora do livro "The Entrepreneurial State: Debunking Public vs Private Myths". Com clareza e desembaraço, Mariana trombou com os preconceitos e certezas da turma que fala fiado.

Sempre empenhado em fugir das banalidades e baboseiras ideológicas, o leitor do jornal terá certamente interesse em enfrentar as páginas do cuidadoso estudo sobre o tema das relações entre os Negócios e o Estado na era da economia global.

Na Ásia, produtividade desceu do éter onde vivem as abstrações dos macroeconomistas para a terra dos homens.

A leitura do "Entrepreneurial State" de Mariana Mazzucato poderia ser acompanhada do livro "Subsidies to Chinese Industry: Capitalism, Business Strategy and Trade Policy" de Usha Haley e George Haley. Os Haley tratam das relações entre as empresas e as políticas governamentais na China recorrendo a uma exaustiva investigação empírica, sem apelar para o blá blá bla ideológico e, não raro, hipócrita, da falsa oposição entre Estado e Mercado, leia-se, entre concorrência e planejamento de longo prazo na experiência mais fascinante do capitalismo contemporâneo.

Os estudos de Mazzucato e dos Haley cuidaram de sublinhar as relações peculiares entre os Estados nacionais, os sistemas empresariais, os programas de inovação tecnológica e a "inserção internacional". Procuraram chamar a atenção para a centralidade da "organização capitalista" em que prevalecem nexos, digamos, "cooperativos" nas relações entre as empresas e as burocracias civis, militares e de segurança encarregadas de fomentar e administrar o sistema de avanço tecnológico (P&D).

Ao examinar essas relações nos Estados Unidos, Mariana Mazzucato desmascara o mito dos "gênios da garagem" e reduz a pó as lendas marqueteiras que celebram o papel do venture capital. Mazzucato descreve minuciosamente o roteiro para o sucesso da Apple de Steve Jobs e seus iPads e iPods. A ação do Estado não só garantiu o abastecimento do capital paciente e capaz de encarar o risco da inovação, mas também ajudou a coordenar as relações entre a grande empresa integradora e seus fornecedores.

No caso chinês, investigado por Haley & Haley, tem sido crucial a presença dos bancos públicos no provimento de crédito para permitir a apropriação da tecnologia, mediante a utilização das empresas estatais para a formação de joint ventures com o capital estrangeiro e promover a "administração estratégica" do comércio exterior. Essa arquitetura institucional não só assegurou excepcionais taxas de investimento e de acumulação de capital, como também ensejou programas de "graduação" tecnológica.

A ação estatal cuidou, ademais, dos investimentos em infraestrutura e utilizou as empresas públicas como plataformas destinadas a apoiar a constituição de grandes conglomerados industriais preparados para a batalha da concorrência global. Não é difícil perceber que as estratégias chinesas de expansão acelerada, impulso exportador, rápida incorporação do progresso técnico e forte coordenação do Estado foram inspiradas no sucesso anterior de seus vizinhos, sócios e competidores.

Os sistemas financeiros que ajudaram a erguer os países asiáticos eram relativamente "primitivos" e especializados no abastecimento de crédito subsidiado e barato às empresas e aos setores "escolhidos" como prioritários pelas políticas industriais. O circuito virtuoso ia do financiamento para o investimento, do investimento para a produtividade, da produtividade para as exportações, daí para os lucros e dos lucros para a liquidação da dívida. A produtividade desceu do éter onde sobrevivem as abstrações dos macroeconomistas para baixar à terra dos homens de carne e osso.

Nota de Advertência

Nos final dos anos 80, alguns tigres asiáticos mais o Japão cederam às pressões externas para a liberalização cambial e financeira, o que levou às concessões que deflagraram a crise de 1997/1998. À exceção da China, os asiáticos, particularmente Coreia e Tailândia, aceitaram os termos da "desopressão" financeira: 1- a eliminação dos controles cambiais, ampliando a possibilidade dos agentes domésticos realizarem transações em moeda estrangeira que não decorriam de operações em conta corrente; 2- a liberação das taxas de juros, com restrição progressiva dos créditos dirigidos e subsidiados e 3- a desregulamentação bancária, ensejando que os bancos locais pudessem ampliar as atividades para além do financiamento das empresas produtivas.

A internacionalização financeira, ao invés da maior eficiência na alocação de recursos, levou isto sim, à valorização cambial, à especulação com ativos reais e financeiros, à aquisição de empresas já existentes, ao sobreendividamento e, finalmente, à parada súbita e à fuga de capitais.

Artigo escrito pelo economista Luiz Gonzaga Belluzzo

Fonte: Valor Econômico

Veja o artigo na íntegra: http://www.valor.com.br/opiniao/4076974/politicas-de-inovacao

 

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